domingo, 9 de maio de 2010

Mamãe



Há 32 anos ela se foi.

O engraçado é que, em quanto viva, parecia a mais comuns dos mortais.

A convivência fazia todos nós sentirmos assim.

Entretanto, após a sua partida, nos momentos que cultivamos as suas lembranças, ela cada vez mais aparece importante, esclarecedora, encaminhadora das nossas vidas e junto com a saudade de sua presença, bate em nós a culpa de não termos aproveitado integralmente o benefício de sua vida missionária.

Ela se foi muito cedo.

Os partos de sua prole, ao todo 10 filhos, por certo, prejudicaram a sua saúde e acabou determinando a sua saída de cena, deixando todos nós meio que perdidos.

Lembro-me, no começo, quando éramos 2 tudo era mais fácil. A sua assistência de mãe zelosa cobria-nos de carinho.

Com o passar do tempo e o aumento dos filhos, cada vez mais exigida, teve que dividir as suas atenções e, evidentemente, tivemos que nos contentar com a sua enorme paciência.

Além da quantidade, a qualidade das traquinagens, por certo, teria levado qualquer mortal ao desespero, ela não.

Desenvolveu uma espécie de controle de qualidade e, sempre, elegia destinar os seus cuidados para aquele de nós que, com suas peripécias, colocava alguma coisa em risco.

Com isso, cada um de nós, os 8 sobreviventes, recebeu dela o carinho e o zelo de mãe.

Depois, mais crescidos, com algum entendimento, assistimos crescer nela a capacidade de liderança, via um especial jeitinho de contar histórias, onde conseguia se expressar como poucas pessoas conseguem.

A liberdade de todos nós era uma realidade e, no entanto, todos tínhamos aquele sentimento imperioso de nos apresentarmos a ela, sem que nunca nos tivesse cobrado isso.

— Mãe, vou jogar bola lá no circulista.

— Mãe, vou ao baile no Grêmio.

— Mãe, vou na casa de fulano.

Sempre dávamos a nossa direção e, ao retornarmos, encontrávamos sempre o café quente e o almoço pronto.

Nem sempre eram flores. Quantas vezes, fugindo do seu controle, fomos apanhados na beira do ribeirão nadando, pagando a falta com uma correria, temperada com belas e precisas chicotadas no lombo. Na verdade, esses momentos, doloridos, foram muito aquém daquilo que, sinceramente, merecíamos.

Marca hoje, em todos nós seus filhos, a nossa incapacidade de compreensão.

Nos momentos de conversas, novos e inexperientes que éramos, achávamos que os seus ensinamentos não eram os corretos e, em cima de nossa "sabedoria burra" não utilizamos as suas verdadeiras pérolas que nos ensinavam a encarar a vida com sucesso.

Hoje nos lembramos disso e nos bate a angústia. Pois foi preciso ela sair da vida para que o seu verdadeiro valor fosse estabelecido.

A sua imagem é forte dentro de mim, expressivamente, a sua foto, que nos presenteou o irmão mais novo, impera lá em casa.

Beijá-la fisicamente é impossível, porém, nas minhas orações e nos meus sonhos beijo-a e abraço-a, todos os dias.

Aquilo que fizemos ou deixamos de fazer, é bom todos saberem, é creditado ao avanço dos nossos espíritos e do mundo em que vivemos. Não devemos nos entregar às lamentações. Mas que falta nos fez sermos mais atenciosos. Fica aí o alerta.

Um grande beijo de todos nós, Mamãe.



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