domingo, 12 de dezembro de 2021

Feijoada Maledeta


 

Feijoada maledeta

 

Vernil Eliseu - 26/08/2003

 

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 A minha vizinha e amiga que me ajuda a compreender e a entender o mundo, finalmente, resolveu convidar-me para almoçar na sua casa.

 

Eu, que não sou bobo nem nada, quis saber qual seria o "menu". Mesmo porque comer arroz com feijão eu como em casa.

 

—   Ora, seu Vernil, o senhor só vai saber no dia.

—    

Insisti, reclamei, mas não houve jeito, tive que me contentar com o convite.

 

Na véspera do dia marcado, desde cedo, cuidei para não exagerar na comida e, principalmente, nas gorduras.

 

Logo no começo da manhã, antes mesmo do café, mastiguei uma folhinha de boldo. Mastiguei outra antes do almoço e outra antes do jantar.

 

O meu intuito era deixar o meu organismo preparado para o que desse e viesse.

 

Cheguei na casa de dona Maria em torno das 10 horas. Havia tomado uma xicara de chá de erva-doce após ter mastigado mais uma folhinha de boldo.

 

Por isso o meu estomago estava totalmente vazio e doendo de tanta fome.

 

— Bom dia pessoal, cumprimentei dona Maria e seus familiares.

 

— O marido dela dedilhava um violão e um dos filhos, meio desafinado, tentava cantar uma canção do momento. Os copos de cerveja estavam todos cheios e no meio da mesa estava uma jarra com caipirinha.

Eu não bebo, ou melhor, eu não posso beber, mas para não fazer desfeita aceitei um copinho de caipirinha e, inexperiente, para não ficar com ele na mão, virei de uma vez só o conteúdo, avaliando que a "mardita" dentro do copo era pouca.

 

Era pouca, mas não para quem não bebe.

 

Senti o líquido descer queimando tudo o que encontrava pela frente. Faltou me ar e os olhos encheram-se de lágrimas.

 

Não reclamei e, por isso, tomei um gole longo de cerveja que estava no copo que me colocaram na mão.

 

A reversão foi violenta e me fez afogar. O acesso de tosse foi sensacional.

 

Com o estomago vazio e aquela agressão que minha ignorância havia permitido, experimentei uma reação como nunca havia sentido.

 

Uma zonzeira tomou conta de mim e não fui capaz de ficar em pé.

 

O mundo parecia um tapete sendo sacudido. Fiquei verde e enjoado.

 

Minha mulher com um pano de pratos, desesperada, tentava produzir o ar que me faltava.

 

Dona Maria veio com um chá de boldo que havia preparado antecipadamente para a ocasião e meteu-me um xicara pela goela abaixo.

 

Aquele amargo foi a gota que fez transbordar a minha desdita.

 

O verde de meu rosto ganhou coloração cinza escuro e eu tive que ser socorrido no pronto socorro da cidade.

 

Dois dias depois, um pouco melhor, soube que havia perdido a melhor feijoada que dona Maria havia produzido.

— Sabe seu Vernil, - dizia dona Maria - tinha paio, calabresa, toucinho, rabo e orelha de porco . . .

 

Tive que sair correndo em direção ao banheiro.

 

Passei quinze dias tomando caldo de galinha.

 

 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Natal de Paz


 

Natal de Paz

 

Vernil Eliseu – 23/12/2.004

 

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Embora o nascimento de Jesus tenha sido assinalado por diversos fenômenos brilhantes, o seu grande brilho, no entanto, só foi conseguido depois de dramas, ensinamentos e sofrimentos, terem marcado a sua vida.

O homem Jesus construiu através de muito respeito, obediência e renúncias, a sua personalidade divina.

As curas que promoveu, por sua vontade, mostraram ao povo, naquele tempo, a grande misericórdia de Deus, para que os homens de todos os tempos, a partir de então, fossem despertados para a necessidade de grandes transformações intimas.

Era imperioso o seu testemunho, pois a humanidade, ainda hoje e mais naquele tempo, não se preocupava com a velocidade requerida para o seu engrandecimento espiritual, julgando, erradamente, que só as conquistas da tecnologia, seriam suficientes para atenderem os desígnios das Leis de Deus.

Por isso, tantas coisas mudaram de lá para cá.

Na oportunidade de festejarmos o nascimento do nosso Salvador, tenhamos viva em nossos corações a história da vida de Jesus.

E, porque somos participes de toda evolução, tenhamos como meta especial a nossa possível contribuição, para vencermos de vez a ignorância que nos impede de estabelecermos no mundo em que vivemos a paz que todos queremos sentir neste Natal.

Feliz Natal para todos!

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Quem tem medo da outra vida


Quem tem medo da outra vida?

 

Vernil Eliseu – 17/03/2011

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São tantos os infortúnios nos dias de hoje que cabe a pergunta.

No passado as guerras cuidavam de manter a ida dos Espíritos para o mundo espiritual, numa constância expressiva.

A quantidade de guerras diminuiu, no entanto, as poucas que espocam aqui e ali, a fome pelo continente africano, os terremotos, os tsunamis e as mortes naturais, continuam mandando para o outro lado número expressivo de seres humanos.

Segundo notícias do mundo espiritual, através da mediunidade, informam que o planeta Terra está num momento de intensas mudanças, se preparando para entrar definitivamente no rol dos Mundos de Regeneração e, para tanto, precisa melhorar o nível de moralidade dos seres que encarnam por aqui.

É preciso saber que estes espíritos, que daqui para frente, vão encarnar no planeta Terra, são espíritos que aqui já viveram encarnados, obedecendo a Lei do Progresso, como resultado do aprendizado e das expiações, que funcionam como cadinho para tornar mais puros os Espíritos.

Nesse sentido podemos responder à pergunta: Quem tem medo da outra vida?

Os Espíritos que estão encarnados e continuam viver ouvindo, a todo o momento, as recriminações pelos seus atos descambados para o lado do mal, por certo, têm medo da outra vida, pois quando chegarem ao outro lado, após a sua desencarnação, encontrarão duas probabilidades:

1ª – Reencarnarem, não mais na Terra, mas num planeta de nível inferior, onde terá a missão de viver no meio de seres com moralidade abaixo da sua própria moralidade. Por isso, já saberão o esforço que deverão despender para enfrentar a barra pesada num mundo, que por certo estará saindo do nível Primitivo para um mundo de Expiações e Provas, mais ou menos no nível do Planeta Terra de 4.000 anos atrás ou mais, numa reencarnação incondicional;

2ª- Reencarnarem, mais uma vez no Planeta Terra, para uma última oportunidade de conquistar o direito de acompanharem o Planeta na sua evolução natural, mas pagando o preço alto exigido, tanto de aprendizado como de Expiação, numa reencarnação condicional.

É certo, também, que muitos daqueles que já conquistaram o direito de acompanharem o Planeta Terra na sua Evolução, estão renascendo e poderão ser identificados pela qualidade mental e de conhecimentos natos, surpreendendo todos nós pelas suas atitudes direcionadas pela nova ordem moral que deverá prevalecer no nosso planeta, sempre premiando o bem.

Estes, por certo, não têm medo da outra vida.      

sábado, 6 de novembro de 2021

É preciso coninuar

Dia das mães de 2021

vernileliseu@gmail.com

 

É preciso continuar

No dia das mães deste ano de 2021.

Ano de tristes momentos para os homens.

Eis me lembrando de mamãe e da mulher amada:

Num facho de luz as imagens das duas apareceram sorrindo lindamente e apontando seus corações emitindo verdadeiras chispas e arrebatando carinhosamente a minha atenção.

Não podia ser diferente, pois ambas conhecem o poder do amor.

As lágrimas então, verteram copiosas e quentes, abençoando o momento fugaz.

Fugaz, mas mostrando, que mesmo lá em algum recanto do mundo espiritual, ambas, continuam direcionando o nosso viver, meu, de meus filhos e de meus irmãos, e de todos os da família.

 Torcendo para que nos caminhos da vida, encontremos a razão para sermos os que amam.

As duas eternamente, sabemos, continuarão sendo os nossos anjos da guarda.

Por isso, neste momento que estou me lembrando delas, a minha fé e a minha esperança no futuro melhor se avivam e dou graças a DEUS.




 

É preciso continuar

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Cara a cara com Deus







Vernil Eliseu – 12/05/200

A meninada gostava de nadar.

Naquele tempo, décadas de 40 e 50, os ribeirões que ladeavam a cidade, ainda, não eram poluídos.

Nas suas margens se via, ainda, lembranças da mata nativa, que aos poucos foi engolida pelo progresso.

Os poços (lugar onde o ribeirão se alargava) se prestavam à natação da meninada.

Nus, pois as margens dos ribeirões ficavam fora da vista da cidade, bandos de meninos refrescavam-se e deixavam a imaginação de crianças inventar as mais variadas brincadeiras.

Os maiores “judiavam” dos menores.

Quando se dava o último mergulho para limpar-se e voltar às suas casas, lá vinham os maiores com as mãos cheias de barro das margens e lambuzavam o garoto para não os deixar ir embora.

Às vezes, somente com o anoitecer é que se conseguia burlar a vigilância e sair correndo com as calças nas mãos para voltar para casa.

Quantas surras a meninada não levou por isso.

Com o tempo as chácaras foram sendo loteadas e as casas ficaram cada vez mais próximas do ribeirão, e muitas mães mais afoitas, arriscavam ir buscar o filho lá nas margens do ribeirão, voltando com os desobedientes puxados pela orelha.

Aos poucos, infelizmente, o santuário da meninada foi se transformando em cidade e o sonho acabou.

A história a seguir se passou quando entre a cidade e as margens dos ribeirões existiam as chácaras.

Nas caminhadas em direção ao rio, muitas vezes parávamos à sombra de frondosa árvore e nos sentávamos para jogar baralho ou, simplesmente, para conversar.

Os assuntos eram variados. Desde os papagaios (pipas) até os jogos de botões.

Muitas vezes deitados de barriga para cima, olhando em direção onde o sol nasce, a meninada ficava horas e horas contemplando o céu e as nuvens.

Os desenhos que as nuvens faziam para apreciarmos eram em grande quantidade. Leões, cobras, cabras, vacas, homens, mulheres.

Num desses dias, após uma hora de observação, um garoto dos menores, levantou-se e disse:

— Vou indo prá casa que aí vem chuva!

Imediatamente todos se levantaram e foram embora. Apenas eu fiquei.

Os desenhos nas nuvens estavam se formando rapidamente e, devido à velocidade das nuvens, iam se sucedendo encantando os meus olhos.

Absorto na admiração aos desenhos das nuvens não vi as nuvens negras rodopiando que vinham chegando, trazendo chuva.

O primeiro aviso foi um raio, que com estrondo descomunal, cortou a copa de uma árvore há uns duzentos metros lá na chácara da dona Mariquinha.

Sentei-me assustado e ao mesmo tempo a chuva desabou impiedosamente. Com duas pedradas na cabeça e meio atordoado corri para debaixo da árvore, junto ao tronco e ali passei o mais sério apuro de minha vida.

Os relâmpagos cortavam o céu escuro e os estrondos pareciam que estavam acontecendo dentro de minha cabeça.

A chuva de pedras fazia um barulho enorme e as folhas da árvore, embaixo da qual eu estava, pareciam que estavam recebendo um bombardeio e caiam esfaceladas no chão.

As pedras não me alcançavam ali junto ao tronco da árvore e eu arrisquei dar uma olhada para cima.

As nuvens negras e espessas estavam sendo sacudidas de um lado para o outro pelo vento incrivelmente forte e as faíscas pareciam sair daquele caos.

Senti-me infinitamente menor do que já era e sem saber o que fazer chorei o choro dos medrosos.

Parecia que Deus aproveitava-se da ocasião para cobrar-me por todos os meus pecados.

Chorando alto, com o coração aos pulos, lembrei-me das aulas de catecismo e agarrei-me à oração. O Pai Nosso saiu entre soluços e gritos, mas do fundo do coração.

Aí se deu o milagre.

Bem, pelo menos eu acho que foi um milagre.

As nuvens negras que não paravam de rodopiar formaram um rosto sereno e eu juro que ouvi sair dela uma voz firme e doce que disse:

— Não chores. Vá para a casa e peça desculpas à sua mãe.

O vento foi parando. As nuvens tomaram um tom mais acinzentado e parando de rodopiar começaram a caminhar, rapidamente, formando novos desenhos. Desenhos de anjos que mudavam para desenhos de harpas, outros cachorrinhos brincando, até que a chuva parou.

Saí como uma flecha e cheguei em casa em tempo recorde. Entrei ofegante e parei na porta da sala para cozinha e falei em voz alta e nunca usada.

— Mãe me desculpa tá.

Minha mãe, que passava um café cheiroso para a gente tomar, comendo um virado de bananas com farinha de milho, que já estava fatiado sobre a mesa, olhou-me espantada, sem entender o que estava acontecendo, falou:

— Me deixa ver se você está com febre!

 

 

 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

O Banquete dos Deuses



29/08/2021

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A dona Escalina, uma senhora negra, alta, bonita, esposa do seu Zé Fumaça, comandava a garotada da rua 13 de maio.

Os iças, parecia, que nasciam do chão e com voos inseguros povoavam os ares da rua.

A garotada (naquele tempo molecada) arrancavam as camisas e começavam a caçada aos iças.

Dona Escalina, sem pressa, ia recebendo o produto das caçadas de cada um dos garotos, cujos olhos brilhavam, pensando no banquete de logo mais.

Para muitos dos garotos aquele banquete que se anunciava era, nada mais nada menos, que a mistura que comeriam naquela tarde.

O número de garotos era de mais de 10, com suas camisas espanando o ar e derrubando os iças, gordinhos e de sabor gostoso.

Da empreitada participavam, também, a Amélia e a Zezé, filhas adotivas de dona Escalina, cujo nome verdadeiro não tenho a certeza se era este.

A caçada era incansável e o produto de tantas “camisadas”, quase sempre enchia uma bacia, tão usadas naquela época (fim da década de 40 e início da década de 50).

A dona Escalina e suas filhas, começavam a preparação para aprontar os iças.

A parte usada era o bum-bum dos iças, gordinhos e de recheio abundante.

As vezes o Iça ia pra chapa quente inteiro.

Na verdade, os garotos sentavam se ao redor da bacia e começavam a degustação prolongada dos iças torradinhos.

Se inteiro separavam o bum bum do resto.

Era uma verdadeira festa, cujo costume, desapareceu na poeira do tempo.

Hoje dificilmente se vê um iça voando no ar da cidade e, por isso, os garotos de hoje, infelizmente não vão conhecer o banquete igual ao que a Dona Escalina proporcionava para todos os garotos da rua e adjacências.

Dona Escalina impunha respeito com a sua altura sem, entretanto, erguer a voz para chamar a atenção dos garotos.

Um tempo de coisas bonitas, mesmo que estranhas para os dias de hoje mas, de grande congraçamento dos vizinhos da rua 13 de Maio.